A Maçonaria não foi um detalhe periférico na trajetória de Gualter Martins Pereira. Em Grão Mogol, seu nome está ligado à criação de uma das mais antigas oficinas maçônicas de Minas Gerais: a Augusta e Respeitável Loja Simbólica Aurora do Progresso nº 3. A instituição atravessou o século XX e chegou ao século XXI em atividade, preservando uma ligação concreta entre a memória do Barão e a história da Maçonaria norte-mineira.
1874: nasce a Aurora do Progresso
Fontes maçônicas e estudos sobre a história do norte de Minas situam a fundação da Loja Aurora do Progresso em 12 de dezembro de 1874, durante o auge da atividade diamantífera de Grão Mogol. Sua regularização teria ocorrido em 14 de abril de 1875, originalmente sob os auspícios do Grande Oriente Unido do Brasil.
A data é particularmente significativa. Gualter havia recebido o título de Barão de Grão Mogol em setembro de 1873. Pouco mais de um ano depois, seu nome aparece associado à organização de uma instituição maçônica na mesma sociedade em que exercia influência econômica e política.
Gualter Martins Pereira: idealizador e fundador
A bibliografia especializada sobre a Maçonaria regional identifica o Coronel Gualter Martins Pereira, Barão de Grão Mogol, como idealizador e um dos fundadores da Aurora do Progresso. O artigo acadêmico de Ivana Denise Parrela também recupera a tradição de que o Barão e seu filho figuraram entre os fundadores da loja em 1875.
Essa associação não deve ser entendida apenas como pertencimento honorífico. No Brasil do século XIX, lojas maçônicas funcionavam também como espaços de sociabilidade entre homens envolvidos na política, comércio, profissões liberais, administração e vida intelectual. Em uma localidade como Grão Mogol, a criação de uma oficina reunia parte importante das elites e das redes de influência locais.
Uma das lojas mais antigas de Minas Gerais
A Aurora do Progresso é descrita em fontes maçônicas como uma das oficinas mais antigas de Minas Gerais. Sua fundação em 1874 é anterior, por exemplo, à instalação de várias lojas que surgiriam posteriormente em centros urbanos mineiros.
Em 2024, a instituição comemorou 150 anos. Registros comemorativos identificam-na como ARLS Aurora do Progresso nº 3 (GOMG), Grão Mogol–MG. O fato de uma instituição fundada no ambiente político e social em que viveu Gualter permanecer ativa um século e meio depois dá à Loja um lugar singular no legado histórico associado ao Barão.
O prédio histórico em Grão Mogol
A sede da Aurora do Progresso faz parte da paisagem histórica da cidade. Listagens de patrimônio cultural de Minas Gerais registram o Prédio da Loja Maçônica Aurora do Progresso entre os bens protegidos de Grão Mogol.
A documentação municipal contemporânea também identifica a Loja Maçônica Aurora do Progresso nº 3 no centro histórico. A fotografia acima mostra justamente essa presença discreta da instituição na arquitetura urbana de Grão Mogol.
Maçonaria, política e poder local
A fundação da Loja precisa ser compreendida dentro da trajetória política de Gualter. Naqueles anos, ele já havia sido vereador, delegado, coronel comandante superior da Guarda Nacional de Grão Mogol e Rio Pardo e suplente de juiz municipal. Em 1873 recebera de D. Pedro II a dignidade de Barão.
Assim, sua atividade maçônica se desenvolveu no mesmo período em que atingia uma posição de grande influência regional. Isso não significa que todos os seus atos políticos possam ser explicados pela Maçonaria. Significa, porém, que a Loja fazia parte das redes de sociabilidade e de poder das quais ele participava.
Liberdade, progresso e o nome da Loja
O próprio nome Aurora do Progresso é expressivo dentro do vocabulário político e maçônico do século XIX. Ideias como progresso, instrução, liberdade, fraternidade, virtude cívica e aperfeiçoamento social aparecem frequentemente associadas à cultura maçônica do período.
Uma história da Maçonaria norte-mineira descreve os fundadores da Aurora do Progresso como homens empenhados no desenvolvimento social e cultural de Grão Mogol e associa sua atuação aos ideais de progresso, liberdade, virtude e patriotismo.
A Maçonaria e a atuação pública do Barão
É tentador ligar diretamente a condição de maçom de Gualter a cada uma de suas iniciativas — construção de estradas, apoio a instituições, abolicionismo ou republicanismo. Historicamente, porém, é melhor trabalhar com relações de contexto e não com causalidades automáticas.
O que se pode afirmar é que sua trajetória posterior apresenta temas muito presentes no ambiente maçônico oitocentista: incentivo à leitura e às associações civis, participação intensa na política, aproximação com o republicanismo e, nos últimos anos da escravidão, atuação pública em favor da substituição do trabalho escravo pelo livre.
Do maçom agraciado pelo Império ao republicano
A biografia de Gualter contém uma aparente contradição que torna sua trajetória ainda mais interessante. Em 1873, recebeu de D. Pedro II o título de Barão de Grão Mogol. Pouco depois, participou da fundação da Aurora do Progresso. Nos anos finais de sua vida, já em Rio Claro, aproximou-se de importantes republicanos paulistas e aderiu ao movimento republicano.
A tradição familiar sobre seu encontro com D. Pedro II chega a atribuir ao próprio Gualter uma declaração de simpatia pelas ideias republicanas quando agradeceu o título. Como explicado na página biográfica, esse diálogo é uma tradição ainda não comprovada por fonte primária. Mesmo assim, a posterior adesão de Gualter ao republicanismo está muito melhor documentada.